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Entre Pulões de Vida e

de Morte

 

Sigmund Freud, que num primeiro momento considerou as condutas agressivas como reação à busca frustrada do prazer, formulou a teoria das pulsões - sendo a de morte representada por Thanatos, antagonista do instinto de vida, Eros. Neste esquema, a primeira aproxima o indivíduo do estado inorgânico, opõe-se ao impulso vital, Eros.

Segundo o modelo, o comportamento agressivo teria, por um lado, o objetivo de dirigir essa força para fora do organismo e, por outro, o de reduzir o estado de tensão. Na perspectiva freudiana, a guerra revela o homem primitivo que vive em nós, aquele que transforma o estrangeiro em inimigo a ser eliminado e banaliza a morte. Essa alteração na percepção da realidade de modo que as perdas pareçam estranhas ou irreais contrasta com a elaboração saudável do luto. Em dezembro de 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, em carta ao amigo psiquiatra holandês Frederík van Eeden, publicada em 17 de janeiro de 1915, na revista TheAmsterdammer, Freud escreveu: "Prezado colega, sob a influência desta guerra permito-me recordar-lhe duas assertivas que a psicanálise introduziu e que decerto contribuíram para torná-la impopular com o público". Do estudo dos sonhos e dos atos falhos das pessoas sadias, e também dos sintomas neuróticos, a psicanálise tirou a conclusão que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desapareceram de maneira alguma, mas continuam vivendo, ainda que recalcados, no inconsciente de cada pessoa, esperando a oportunidade de reativar-se.

A psicanálise, além disso, ensinou-nos que nosso intelecto é algo frágil e dependente, bibelô (futilidade, passatempo) e  instrumento de nossas pulsões e de nossos afetos, e que somos obrigados a agir ora com inteligência ora com estupidez, conforme o querer de nossas atitudes íntimas e de nossas resistências.

 
 

 

 

 

Pois bem, veja o que está acontecendo nesta guerra, veja as crueldades e as injustiças das quais se tornam responsáveis as nações mais civilizadas, a má-fé com que se comportam diante de suas próprias mentiras e iniquidades; e observe enfim como todos perderam a capacidade de julga com retidão: é forçoso admitir que ambas as assertivas da psicanálise eram exatas". Freud vislumbra no homem impulsos destrutivos primários prontos a reaflorar quando falham as ligações afetivas da comunidade.
A propensão gregária da maioria das pessoas supera a improvável submissão de suas pulsões à razão. Para Freud a salvação reside no (frágil) processo de civilização. Claro, as pulsões de morte não são neutralizadas pelas de vida. Aliás uma interiorização excessiva, em outras palavras, uma intensa incorporação inconsciente das pulsões destrutivas não é desejável. Não obstante, para o criador da psicanálise, uma civilização deve ter em máxima consideração a potencialização do intelecto e a interiorização da agressividade, com todas as vantagens e os perigos que daí derivam. A guerra se contrapõe a todas as conquistas psicológicas alcançadas por meio da civilização. E é por isso que tudo o que favorece o ato de civilizar age também contra a guerra. (M. M.)


 

Fonte: Maldonato, Mauro. Prontos para a guerra? Mente & Cérebro, São Paulo, n. 196, p. 80, mai 2009.

 

 

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